ENTREVISTA A LUIS MIGUEL CORREIA, PORTUGAL / INTERVENCION EN EL PATRIMONIO CONSTRUIDO

Contextualización:

La arquitectura es un generador constante de nuevos espacios, siempre con un precedente común “la intervención en la preexistencia”, sea esta natural o construida. Es por este motivo, que resulta necesario profundizar sobre el concepto de intervención, ya que la presente entrevista se enmarca en proyectos de que se han desarrollado en un contexto industrial en estado de obsolescencia y arquitectónico patrimonial.

Según Ignasi de Solá-Morales el término intervención es un concepto máximamente general, es decir por intervención podemos entender todo tipo de acciones ante un edificio o arquitectura: restauraciones, preservación, reutilizaciones, etc. La acción de intervenir es básicamente un análisis, una reflexión, una valoración y exploración de lo que se está interviniendo interpretándolo.  “En realidad, todo problema de intervención es siempre un problema de interpretación de una obra de arquitectura ya existente, porque las posibles formas de intervención que se plantean siempre son formas de interpretar el nuevo discurso que el edificio puede producir.” (Solá Morales, 2006:15). Este planteamiento de la interpretación es un hecho inherente a la arquitectura y al arte. Por lo tanto, la intervención es una acción cambiante, es única para un edificio o espacio ya que los factores que inciden en la acción de intervenir en las preexistencias son únicos.

Luís Miguel Correia (Coim­bra, 1970) es Arqui­tecto del Depar­ta­mento de Arqui­tec­tura de la Facul­tad de Cien­cias y Tec­no­lo­gía de la Uni­ver­si­dad de Coim­bra (DARQ | FCTUC). Maes­tría en Cien­cias de la Cons­truc­ción del Depar­ta­mento de Inge­nie­ría Civil (FCTUC). Autor de la tesis “Cas­ti­llos en Por­tu­gal. Un retrato de su per­fil arqui­tec­tó­nico [1509–1949]”. Autor y co-autor de varios pro­yec­tos en dife­ren­tes cate­go­rías, tales como la vivienda, la reha­bi­li­ta­ción de espa­cios públi­cos, edi­fi­cios comer­cia­les y públi­cos y cons­truc­cio­nes efí­me­ras. Espe­cial refe­ren­cia a los pro­yec­tos desa­rro­lla­dos para edi­fi­cios y sitios del patri­mo­nio en cola­bo­ra­ción con el anti­guo Ins­ti­tuto Por­tu­gués del Patri­mo­nio Arqui­tec­tó­nico y de la Junta Gene­ral de Edi­fi­cios y Monu­men­tos Nacio­na­les.

 

ENTREVISTA

SOBRE INTERVENIR PATRIMONIO EN PORTUGAL:

1._ Considerando la referencia de la escultura de “Chillida” en la intervención del Castillo de Pombal es esta una interpretación de la arquitectura existente? , ¿es una continuidad que reconoce el valor del pasado?.

[LMC] A intervenção na Torre de Menagem do Castelo de Pombal (figura.1), concluída em 2002, inscreve-se com toda a certeza nas circunstâncias que enformam a questão. Esta pequena obra resultou de uma reflexão pessoal sobre o valor do passado, o património, mas, sobretudo, na forma como se manifesta a sua continuidade, ou não, no nosso tempo. O património arquitectónico conhece a sua discussão a partir do séc. XVIII em França e em Portugal figura desde oitocentos. Desde esses tempos, o passado surge como um valor absoluto ao qual o presente se deverá sujeitar ou definir, desenhar. Na minha opinião, essa é a grande diferença entre as posições de Eugène Viollet-le-Duc (1814-1879) e de John Ruskin (1819-1900), que, aliás, marcariam inúmeras intervenções durante os séculos XIX e XX. Mas é inquestionável que a arquitectura do passado é o único protagonista, aquela sobre a qual podemos ter uma certeza. O presente é sempre uma possibilidade, um tempo intermédio – entre o passado e o futuro – que procuramos esclarecer. Hoje, julgo que esse debate tem outros contornos, a dúvida não se coloca somente no presente mas, também, no passado. Pese embora, as teorias, as cartas ou as doutrinas de referência, entendo a relação deste binómio como uma contínua dúvida para o qual não há, nem devem existir, respostas absolutas! A certeza de uma posição, de um desenho pré-concebido, pode encontrar no seu contrário, igualmente, a verdade! É neste contexto que considero a obra de Eduardo Chillida uma referência! Atente-se nas suas palavras em “Escritos” (Chillida, E., 2005:47, Madrid: La Fábrica): “¿Por qué prefiero el conocer al conocimiento? ¿No está siempre lo desconocido dentro de lo conocido? ¿No se tratará de conocer lo que se desconoce? ¿No será el arte una necesidad hermosa y difícil, que nos conduce a tratar de hacer lo que no sabemos hacer? ¿No será esta necesidad prueba de que el hombre no se considera terminado?” Adiante esclarece: “Trabajo para saber; valoro más el conocer que el conocimiento. Creo que debo aventurarme en hacer lo que no sé hacer. Buscar, visualizar donde no veo, anhelar reconocer lo que no puedo discernir”. Mais do que as obras realizadas é o seu discurso que me motiva, que me orienta. Em relação à obra da Torre de Menagem do Castelo de Pombal, foi determinante a visita a “Peine del Viento XV”, obra de 1976, em San Sebastián (figura.2). Fiquei seduzido à primeira vista!… A obra tocou-me pela serenidade e pela inquietude daquelas gigantescas e delicadas peças de aço incrustadas na rocha contra o mar, contra o horizonte, contra a certeza. Desde logo, desejei aquele confronto, aquela calma entre a certeza e o desconhecido, a integração do presente no passado! Aquela atmosfera! Respondendo directamente à pergunta, a intervenção em Pombal é por estes motivos uma interpretação da arquitectura do presente que reconhece o valor contínuo do passado. Não de uma forma directa mas antes pela sedução, pela atmosfera criada. Em fase posterior, as intervenções no Castelo de Castelo Novo (figura.3), terminada em 2008, e no Castelo de Pombal e Encosta Envolvente – esta, ainda em execução – dão continuidade a este discurso (ver www.comoco.eu).

Figura 1figura.1: Vista da Torre de Menagem do Castelo de Pombal

Figura 2figura.2: Luís Miguel Correia em “Peine del Viento XV”

Figura 3figura.3: Entrada do Castelo de Castelo Novo

2._ Qué factores políticos, económicos, sociales etc. crees tú que inciden en la puesta en valor del patrimonio arquitectónico en Portugal considerando la calidad lograda hoy en día en este tipo de intervenciones.

[LMC] Julgo que todos contribuem para este fenómeno, sejam eles de raiz política, social ou cultural. De facto, vivemos um tempo em que o desconhecimento não tem razão de existir. Este aspecto contribui decisivamente para um melhor esclarecimento das posições a adoptar. Obviamente, os arquitectos e a arquitectura retiram proveitos próprios destas circunstâncias. Porém, não alinho num discurso tão optimista! Este cenário do fantástico é construído nas publicações de arquitectura, que se centram apenas nas obras e nos arquitectos de referência, esquecendo o valor do território. Naturalmente, constrói-se uma “verdade” que, na maioria dos casos, não se pode generalizar, é singular. Em Portugal sucede assim! Temos o Álvaro Siza, o Eduardo Souto Moura… mas temos também uma outra realidade que não é tão interessante e tão encorajadora.

3._ ¿Qué intervención con carácter patrimonial existente fuera de Portugal merece ser destacado ya sea como un mal ejemplo o como un ejemplo bien logrado de intervención?

[LMC] Uma pergunta de resposta difícil! São tantas as obras bem… e mal realizadas. Nos últimos dois anos realizei duas viagens de estudo com os meus alunos do Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra à obra de Le Corbusier em França e na Suíça. Em ambas, visitámos obras que são reconhecidas e classificadas pelo Estado ou pela própria Fundação Le Corbusier, e como tal objecto de intervenções. No geral, são obras de conservação que, no entanto, obedecem a um conhecimento profundo da arquitectura e do arquitecto, no caso Le Corbusier. Na primeira das viagens percorremos o Couvent Sainte-Marie-de-la-Tourette (1953), e em Firminy-Vert, a Maison de la Culture (1956), o Stade Municipal (1965), a Église Saint-Pierre (1960, não concluída nesta data) e a Unité d’habitation (1960). Ainda neste périplo registámos as primeiras casas de Le Corbusier em La Chaux-de-Fonds, terminando esta viagem em Chapelle Notre-Dame-du-Haut (1950-1955) em Ronchamp. Sobre elas poderia dizer muitíssimo… mas o tema é “intervenção em património”. Centrando-me somente neste aspecto, destacaria deste conjunto a intervenção realizada pela mão da Association Maison Blanche na Maison Jeanneret-Perret em La Chaux-de-Fonds (1912), também conhecida pela “Maison Blanche” (figura.4). Trata-se de uma obra que manifestou um cuidado distinto com a história e a materialidade construtiva do existente e do projecto. Não menos importante, penso aliás que fundamental para a preservação de qualquer “existente”, é a manutenção que é dada ao edifício. Não só é perfeita esta condição como também o programa instalado permite um equilíbrio entre o uso do edifício e o facto de se constituir património. Em sentido oposto, a Maison Schwob (1916) ou a “Ville Turque”, igualmente, em La Chaux-de-Fonds, não obedece aos mesmos princípios. Recuando ao tema da primeira pergunta desta entrevista, a conclusão da Église Saint-Pierre em Firminy-Vert é, em minha consideração, uma intervenção que não compreende o valor do passado e a sua continuidade no presente. Como diz um colega meu, o António Belém Lima, “o arquitecto deve sempre acrescentar alguma coisa”. Penso que nesta intervenção o que se somou em nada contribuiu para um melhor entendimento da obra ou da história do lugar. Simula-se uma obra de Le Corbusier sem o ser… Neste caso, dever-se-ia adoptar uma estratégia diferente. Na segunda viagem, a Paris, destacaria das várias obras revistas as intervenções na Maisons La Roche et Jeanneret (1923-1925) e no Immeuble Locatif Porte Molitor – Appartement L.C. (1931-1934) (figura.5), sob a orientação da Fundação Le Corbusier. Tal como na Maison Blanche, nestas duas obras de Paris constata-se o respeito pelo espaço, pela construção e pela memória. Mais do que a Maisons La Roche et Jeanneret, no apartamento L.C. sente-se o tempo, o passado. Por último, citaria a obra de Peter Zumthor nas ruínas de St.Kolumba, concluída em 2007, em Colónia – “Kolumba Art Museum of the Cologne Archdiocese” (figura.6) – e por oposição a CaixaForum (figura.7) de Herzog&deMeuron em Madrid, esta de 2008. Tal como a restante obra construída, pela semelhança podíamos compará-la com o “Protective Housing for Roman Excavations” (1985-1986) em Chur, Peter Zumthor mostra-nos o equilíbrio entre a história e a sua continuidade no presente, ou seja, a sua contemporaneidade. Tal como Eduardo Chillida, Peter Zumthor cria um dialogo emocional, que designa por “atmosferas”. Nas palavras de Brigitte Labs-Ehlert (in “Atmosferas”, Zumthor, P., 2006:7, Barcelona: Gustavo Gili), “um ambiente, uma disposição do espaço construído que comunica com os observadores, habitantes, visitantes e, também, com a vizinhança, que os contagia”. Ao invés, Herzog&deMeuron, criam um cenário do qual a matéria existente surge como um mero revestimento, um espectador! Neste caso, a noção de continuidade é corrompida em função de uma contemporaneidade de valor absoluto e inflexível!

Figura 4figura.4: Luís Miguel Correia na Maison Blanche

Figura 5figura.5: Vista do Immeuble Locatif Porte Molitor – Appartement L.C.

Figura 6figura.6: Vista do Kolumba Art Museum of the Cologne Archdiocese

Figura 7figura.7: Vista da CaixaForum Madrid

SOBRE LA EDUCACIÓN DE LA ARQUITECTURA:

4._ Considerando que las obras más notables de arquitectura levantadas recientemente  en Europa y Chile están asociadas a preexistencias y que en el futuro gran parte de los nuevos proyectos se relacionaran al patrimonio existente. ¿Cuál es el grado de conocimiento que debe impartirse en las escuelas de arquitectura o pregrado sobre estas materias? (conservación – intervención).

[LMC] Não conheço o panorama no Chile sobre este assunto. Em Portugal, este tema tem sido tratado de forma diversa e, acrescento, muito discutivel. Até há reforma de “Bolonha” o ensino de arquitectura em Portugal tinha três etapas de formação: a licenciatura (5-6 anos), os mestrados (2 anos) e os doutoramentos (3 anos, pelo menos). Com “Bolonha” a pós-formação em arquitectura centrou-se unicamente nos cursos de doutoramento (os mestrados não são mais que os antigos 4º e 5º anos da licenciatura). Tal como nas restantes “especializações”, o tema do património apenas é tratado nos cursos de doutoramento, neste caso com carácter facultativo. Nos que conheço, os estudos dirigem-se para uma leitura histórica, uma análise de casos sem projecto de intervenção. Sem querer colocar em causa estes modelos, julgo que a sensibilização sobre este tema deverá centrar-se nas disciplinas de projecto dos cursos de arquitectura, nomeadamente com a escolha de programas que fomentem esta discussão em torno do património, não de uma forma retórica, mas antes prática, com desenho… sabendo, desde logo, que a experiência da obra é insubstituível! Apesar da pertinência deste tema, não devemos criar “especialistas”. Acredito que o arquitecto é um homem do todo e não do particular!

SOBRE EL VALOR SOCIAL DEL PATRIMONIO:

5._ Qué opinión tienes respecto de ciertos inmuebles de gran valor histórico, que tienes importantes usos sociales pero que carecen de valor arquitectónico y artístico… ¿Cómo crees que pueden ser protegidos? Y ¿Cómo deben ser intervenidos?.

[LMC] Histórico, social, arquitectónico, artístico… poderíamos agora acrescentar os recentes intangíveis. Penso que não deveríamos catalogar e subdividir a arquitectura. Em concreto, podemos distinguir a arquitectura em duas: a boa e a má. Em última instância, podemos cingi-la ao seu carácter utilitário: funciona, ou não. Em minha opinião, como é que podemos olhar para edifício e dizer: este tem uma bela história mas não tem qualidade arquitectónica!? Em Portugal, existe um caso paradigmático destas circunstâncias: os castelos do período medieval. Maioritariamente em ruínas, foram objecto de uma intervenção massiva nos anos 30-50 do séc. XX sob o pretexto do seu valor histórico (figura.8). Sobre este assunto publiquei recentemente o livro intitulado “Castelos em Portugal. Retrato do seu perfil arquitectónico (1509-1949)” (2010, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra). No contexto político da época, a ditadura do Estado Novo de Oliveira Salazar, o discurso sobre o património visava a exaltação dos períodos heróicos da História de Portugal. Os castelos pela sua importância nas lutas da Reconquistas e da Independência foram naturalmente os escolhidos. Apesar de enaltecerem as qualidades arquitectónicas destas estruturas militares, os relatos salientam sobretudo o discurso sobre o valor histórico dos mesmos. Aliás esta foi a primeira condição para a sua classificação em massa. Na verdade, estas intervenções e classificações foram determinantes para a sua salvaguarda, principalmente porque fizeram ressaltar a sua qualidade arquitectónica! Hoje quando os visitamos não perdemos tempo a pensar se gostamos mais da sua história, da arquitectura ou do seu lado artístico. Uma obra é isso tudo! Também não acredito que a protecção de um imóvel deva passar unicamente pela sua classificação. A salvaguarda do passado deve acontecer em função do respeito e do bom senso… que passa, como disse anteriormente, pela sua permanente manutenção. Nesta aspecto não vejo diferença entre um edifício classificado ou não! Como se deve intervir? Não devemos procurar uma resposta universal para esta questão. A história da arquitectura ensina-nos que devemos seguir em frente, conscientes que hoje é passado amanhã.

Figura 8figura.8: Vista do Castelo de Pombal depois das intervenções dos anos 40

 

 

Luís Miguel Correia

Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra

Coimbra, Portugal

02/06/2010

 

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